as cidades e
os símbolos

 

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corpo-cidade do invisível ao tátil

O suporte do meu trabalho é o corpo. O humano, de carne, osso, sangue pele. Mas não só. Minha formação passou pelas cidades que vivi e visitei, e pelas experiências em suas ruas. Ao longo dos anos fui percebendo melhor como as estruturas urbanas influenciaram minhas ideias e percepções. Logo entendi que o urbano também é um corpo vivo: cresce, muda, se alimenta e se movimenta, e meu trabalho de conclusão de curso na UnB foi meu primeiro estudo consciente sobre as relações corpo|cidade.

As idéias e elementos visuais desses universos frequentemente aparecem em meus trabalhos, mas teve um em especial que me levou a novos conceitos e entendimentos sobre o tema. Já fazia parte da minha forma de trabalhar buscar entender a ideia e não apenas ver as imagens trazidas pelo cliente, mas quando o Fábio chegou no estúdio e disse que queria tatuar um livro, essa dinâmica ganhou uma nova proporção. Não era representar um livro, com capa, páginas e texto —até já havia feito algo assim. Dessa vez era O livro, seu conteúdo, sua história. Ele escolheu um de seus preferidos e me procurou para de alguma forma representá-lo na pele: Cidades Invisíveis de Italo Calvino.

Primeira coisa a se fazer foi ler o livro e logo me vi seguindo os passos de Marco Polo por cidades imaginárias tão reais, que as reconhecia em minhas memórias. Fiz anotações, esquemas, diagramas, e escrevi páginas e páginas antes mesmo de fazer o primeiro rascunho. Afinal, são cinquenta e cinco cidades descritas ao imperador e que Calvino organiza em onze grupos de tema comum, mas que cada cidade trata de forma particular. Sim, sem chance de tatuar tudo isso. Mas antes de mais nada eu precisava adentrar no território de Kublai Khan, para através das narrativas do viajante, poder descrevê-las visualmente a minha maneira. Fábio me mostrou suas cidades favoritas e reorganizarmos tudo de acordo com as conversas e anotações.

 
 
 
 
 

Moça que passa e os olhares trocados em Cloé. foto Autor, 2016

 
 

Entre as cidades e as memórias
(as do livro e as minhas), busquei traçar na pele algumas linhas percorridas pelo texto.

Os dirigíveis de Zirma são a redundância das cidades, que "repetem-se para fixar alguma imagem na mente", e existem justamente nisso. Como aquela grande metrópole que você também nunca foi, mas de tanto ver seus símbolos já a sente de alguma forma presente. Por um segundo os olhares trocados numa cidade grande, onde ninguém se cumprimenta, carregam possíveis histórias de encontros, seduções, abraços, e riscam

 
 
 

Gigante tatuado de Cloé e/ou tatuador de uma (ou inúmeras) loja a dispor agulhas e tintas aos marinheiros de Zirma. foto: Autor, 2016

 
 
 
 

Os arquétipos urbanos do livro falam de todas ou de uma cidade só, percebida e lida de diferentes pontos. Cidades que refletem umas às outras, ora sob um lago submerso onde o invisível condiciona o que está ao alcance dos olhos, ou codificada nos fios de uma tapeçaria que em seu esquema geométrico traduz a harmonia do céu e das estrelas. Vista pelo cameleiro, por exemplo, a cidade a frente toma a forma de suas expectativas: um navio rumo a um mar de possibilidades. Já o marinheiro a vê como o sossegado caminhar de um camelo. Ou do condomínio à  periferia, e vise versa, "a cidade recebe a forma do deserto a que se opõe".

Esses aglomerados que sobem e descem, entre prédios e palafitas, sacadas e pontes, desejos e ilusões, me fazem lembrar de Recife ou Rio de Janeiro. Ou ainda Olinda, cidade oculta que cresce diferente, de dentro pra fora, onde o novo brota e empurra cuidadosamente os antigos bairros e suas muralhas para as margens, se repetindo e se reinventando sem fim.

 
 
 
 

Cameleiro rumo a Despina. foto: Autor, 2016

 
 
 

 

O relógio astrológico de Lund, na Suécia, é uma das lembrança que Fábio guarda de sua cidade natal, já eu me recordo ponto a ponto dos caminhos e ruas do bairro que cresci em Belém. Zora também tem essa propriedade de permanecer na memória, mesmo não sendo tão marcante. Seu trunfo é o modo musical que o olhar percorre suas formas, vistas como quem lê uma partitura. E a música que Fábio lê nas figuras centrais de sua tatuagem é um pequeno trecho de Goodbye Pork Pie Hat. E essa improvisação característica do jazz ressonou nas linhas do projeto.

Foi antes de tudo um exercício de troca. De referências, símbolos, registros, e de memórias, como as que ocorrem em todos os solstícios e equinócios de Eufêmia, onde mercadores de 7 nações se encontram não só para o trato comercial, mas porque ali em volta da fogueira, todas as noites, cada história encontra par com tantas outras, que ao retornar todos carregam um pedaço das novas memórias.


 

Membro da confraria dos encapuzados, com acesso a mimese morta de Eusápia. Foto: Autor, 2016

 

Apareceram no meio de tantas conversas, anotações, rascunhos e agulhas, as dualidades comuns a condição humana/urbana. Ora em extremos opostos, elementos distintos compõem o mesmo ciclo, e a permanência do movimento se fixa na pele. Entre tantos começos e fins, vidas e mortes, fica difícil distinguir qual é um ou o outro. Como na necrópole subterrânea Eusápia, que reproduz em morte o cotidiano da vida, e em vida os avanços da morte.

O corpo que carrega tantas cidades, e que por tantas outras ainda vive, continua a se transformar, tanto como os pequenos detalhes de pigmento sob a pele. Suas metáforas e simbolismos ganham novos significados a cada novo observador, e a cada nova leitura se refaz na sua própria identidade. A tatuagem é permanente e sua essência é a mudança, sem que um contradiga o outro. É o conjunto que existe, sem hierarquia de valores. Como escreveu Calvino no diálogo entre o viajante e o imperador:


 
 
 

Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.
— Mas qual é a pedra que sustenta a ponte?  — pergunta Kublai Khan.
— A ponte não é sustentada por essa ou aquela pedra — responde Marco — , mas pela curva do arco que estas formam.
Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:
— Por que falar das pedras? Só o arco me interessa.
Polo responde:
— Sem pedras o arco não existe.

 

bibliografia
CALVINO, I. As cidades invisíveis.
São Paulo: Cia. das Letras, 1990a