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Zekher

 
 

tatuar é bem simples, não é nada demais. não necessita de grandes tecnologias ou aptidões. é um ato natural, eu diria. tão antigo quanto nós mesmos, humanos. se nos reconhecemos como espécie a partir de uma evolução linguística, admitimos então que a comunicação é diretamente ligada a nossa existência. e comunicar é transmitir uma mensagem, do eu ao outro. Mas antes de elaborarmos linguagens complexas, utilizamos o que temos de mais próximo, mais viceral, o nosso próprio corpo. sons e gestos serviram para passar a diante — ao outro, o que sentimos e pensamos no nosso íntimo. e tatuagens são isso, uma forma simples, direta e primitiva de comunicação entre iguais.

hoje vivemos uma era de comunicação bem mais ampla e global, com diferentes meios e canais para transmitir uma mensagem. agora podemos falar uma outra língua com um app no celular, ou ver uma cidade distante do ponto de vista da rua, em 360 graus, direcionando o olhar a nossa escolha. e aprender a tatuar também: pode ser simples, de casa, sozinho. de qualquer lugar com acesso a internet, em apenas 2 minutos, qualquer pessoa pode aprender a fazer uma tatuagem ( sim, estou falando desse vídeo). e com isso, ter acesso a mais uma forma de comunicação. o que em síntese é ótimo — sou a favor de toda a forma de conhecimento!

mas já ha muito tempo a comunicação humana (em suas inúmeras vertentes) se torna cada vez mais complexa. agrupamentos simbólicos diferentes deram forma a culturas distintas, com suas infinitas variações. Ok, tá certo que o Google Tradutor é uma ótima ferramenta e já facilitou muitas conversas, mas ninguém aprende uma língua assim. claro que é interessante ver o mundo todo por imagens de satélite, e eu mesmo já sabia alguns caminhos em cidades que acabara de chegar, mas obviamente, não as conhecia.

 

da mesma forma que copiar um caractere em mandarin, ou colocar pigmento na pele de alguém, não é comunicar. não diz nada a ninguém.

e em tempos de comunicação instantânea, de redes sociais globais, time line e barra de rolagem infinita, uma forma de comunicação permanente poderia assustar ou simplesmente cair em desuso. pelo contrário: foi consumida, viralizada e parece ter se dissolvido em #hashtags e listas top 10. claro que tem quem diga "TATTOOING IS DEAD" em letras garrafais com algum .jpg de luto. mas eu creio que não. tatuar é lembrar pra sempre. vem da necessidade humana de gravar informações, de transmitir conhecimentos e memórias. é da gente, é natural, é do que somos feitos.

a cultura — e aqui cabe lembrar que é todo aquele conjunto de crenças, hábitos, moral, arte, etc — que cresceu em torno dessa linguagem pode sim estar em risco, ou em decisiva transformação. mas não é a primeira nem será a ultima vez que isso acontece. taí o google que pode te mostrar que a tatuagem já foi de tudo nesse mundo, que já significou e deixou de significar infinitas coisas. e ao meu ver, a melhor maneira de se preservar a cultura e a história envolvidas nessa prática é justamente ampliando seu conhecimento. ao repassar o que foi aprendido, tanto os valores e quanto as responsabilidades, aprofundamos o debate e o discernimento sobre o fazer.

somente por pigmento na pele não fala sobre tatuagem, não é nada demais. tentar se fechar do mundo atual não é proteger, pode ser suicídio. o fazer sem conhecer é predatório sim. e se marcas definitivas surgem no corpo por necessidade de comunicação, é através da troca que se alimenta essa essência. se a cultura cresceu em torno de uma forma de lembrar, é repassando histórias que se entende e fortalece a prática. para significar o símbolo tem que ser assimilado, e pra isso é preciso se manter relevante e atual. e acredito que para ter/fazer algo além de dermopigmentacão é preciso pelo menos entender um pouco disso.

 

zekher — verbo hebreu que significa “gravar”, “entalhar” e também “lembrar-se” no sentido de lembrar de algo para a eternidade. “gravado” é o mesmo que “indelével”, “irrevogável”.


 

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