Tatuagem sobre Muro

Marcas na superfície-limite do corpo coletivo.

Meu interesse pelas inscrições do corpo vem de muito antes de me tornar artista ou tatuador. Me fascinava ver o desenho se tornando parte da pessoa, inseparáveis para onde quer que fossem. Muito depois, me deparo com conceitos que, em parte, explicam aquilo que me fascinava: o corpo tornando-se símbolo, interlocutor, meio e mensagem fundidos em uma forma viva. Hoje, pesquiso e trabalho com imagens gravadas no indivíduo e no coletivo, entendendo o grupo como um organismo vivo e traçando um paralelo entre o corpo humano e o corpo urbano. Também observo como as marcas da superfície alteram não só a forma, a visualidade, mas a própria relação deste corpo com os demais agentes sociais. E quando símbolos surgem em corpos postos à margem social e geográfica, entendo que esse gesto ganha a dimensão de tecnologia de sobrevivência, como ferramenta de afirmação simbólica capaz de tornar visível o que antes foi sentido como necessidade.

O limite físico do ser individual no mundo que o cerca é a própria pele, a fronteira mais íntima e a linha que divide o eu dos outros, e que por isso, se torna a plataforma comunicativa mais básica aos humanos. Uma camada mediadora de relações sociais e área de contato entre o dentro e o fora. E à medida que indivíduos se juntam e agem coletivamente, agrupando-se por aproximações culturais, as relações comunitárias dão ao coletivo um corpo único. Esse conjunto se torna um organismo e a fronteira que delimita a noção de nós, ganha contornos sólidos, assentando no território o lugar de convergência do grupo. E nessa construção, as paredes que definem os limites do espaço delimitam o que é público do que é privado, o dentro e o fora, o nosso e o dos outros, noções que se tornaram intrínsecas a nossa organização social e cultural.

As imagens que surgem e circulam nessas zonas-limites alimentam a produção do meu trabalho, onde o processo de gravá-las é tão importante quanto o que está alí inscrito. O que já foi uma busca em tentar entender o porquê, deixou de procurar uma resposta única e se perdeu nas várias ramificações de uma prática, tão antiga e múltipla, quanto a vida humana. Tatuagem é o jeito de deixar, com agulha e tinta,  sinais indeléveis sob a pele, que depois de ferida, cicatriza e se une às suas novas cores, deixando visível os sinais de sua transformação. São marcas de um indivíduo e de sua cultura, que permanecem através do tempo. 

Esse princípio permanece o mesmo quando o corpo é coletivo, e o muro assume o papel de superfície-limite. Deslocar o ritual de incisão e cuidado para o espaço físico evidencia a transferência simbólica, onde o concreto incorpora o desenho e fixando as marcas da vida de um lugar. Ao ferir o reboco com uma ponta de aço, e em seguida preencher com mistura de argamassa e pigmento, o que fica é a cicatriz da ação, incrustada na matéria daquele muro. Chamo essa técnica de tatuagem sobre muro, pois é o que é: marca indelével no reboco de uma construção de alvenaria. E mesmo que alguém, depois, decida pintar aquela parede ela ainda permanece lá (como quem esconde a tatuagem sob a roupa), e poderá ser revista sempre que a camada superficial de tinta for retirada.

 
 
 

O universo imagético da tatuagem contemporânea é vasto, pois é possível reproduzir na pele quase qualquer tipo de imagem, ou algo muito próximo a ela, apenas adaptado às condições fisiológicas da mídia. Desde os pontos e linhas de Ötzi (corpo encontrado nos Alpes, datado de 5000 anos e com 61 tatuagens), aos retratos coloridos hiper-realista de celebridades ou personagens de cultura pop, a tatuagem é tecnicamente capaz de imprimir na pele uma enorme variedade de imagens. Dessa forma, não há apenas um estilo ou desenho específico que possa ser tatuado. O que ocorre é que, historicamente, alguns motivos ou estilos se fixaram no imaginário popular por repetição, tornando-se quase que sinônimos da prática, principalmente no ocidente moderno. Para o meu trabalho, interessam as tatuagens vernaculares - aquelas que aparecem pela relação direta com a cultura da qual emergem, pois acredito que há uma força tão grande nessas imagens que, ligadas ao contexto em que surgem e se multiplicam, superam qualquer virtuosismo técnico. São esses os desenhos que me fascinaram e que ainda hoje movem minha pesquisa e trabalho artístico.

Um dos fatores que distinguem a tatuagem de outras técnicas de gravação, é o fato de ser feita em um corpo vivo, que se move e se relaciona com os outros. No corpo urbano, é a vida que acontece naquele espaço que dá movimento e diz sobre memória e identidade do lugar. Como então seria possível colocar a tatuagem no espaço expográfico, teoricamente neutro, de museus e galerias? Como capturar o corpo vivo e colocá-lo em exposição num cubo branco? Decido fazê-lo por partes,  com pequenos pedaços de muro, fragmentos que remetem a histórias de outros lugares. Trago tijolo por tijolo, como quem junta peças de um quebra-cabeça que sempre estará incompleto, mas ainda sim, dá acesso ao que não pode estar alí. Funcionam como os pedaços de peles tatuadas conservadas em formol [* como essa, essa e essa], que foram extraídos de corpos, muitas vezes anônimos, para fins de “estudo” daquilo que parecia tão exotico aos olhos da ciência cartesiana e sua ânsia em dividir, classificar, e consumir o mundo. É o olhar que separa os civilizados dos selvagens, os direitos dos imorais, os cidadãos dos vagabundos, que recaiu sobre a tatuagem e a empurrou para a margem, mas não é, e nem deve ser, a única forma de enxergá-la. 

 
 
 

O que acompanha e pesquisa e a plasticidade de meus trabalhos é minha vivência de mais de duas décadas como tatuador, o cotidiano dos estúdios e as trocas com  as inúmeras pessoas que tatuei. A oralidade é parte substancial deste ofício, desde transmissão de saberes à inevitável negociação entre quem faz e quem recebe uma tatuagem. E foi da escuta que surgiram os trabalhos que realizei na ocupação do prédio histórico situado na Avenida 9 de Julho, em São Paulo, que recebeu duas tatuagens em ocasião da exposição O que não é floresta, é prisão política, de 2019. Em Santinha, 2019, fixo no concreto uma imagem que já havia sido riscada a lápis em sua parede, por moradores de uma ocupação anterior. A imagem de Ns.Sra. Aparecida é também recorrente em tatuagens no Brasil há muito tempo, como evidencia o acervo do Museu Penitenciário Paulista, com registros fotográficos do início do séc. XX. A outra imagem que tornei permanente naquela construção faz referência ao quadrado riscado de giz para abrir passagem ao grupo, tática de ocupação relatada pelo Movimento Sem Teto do Centro, que habita aquele espaço desde 2016. 

Muito do que se tem de documentação de tatuagens no Brasil, passam por laudos médicos ou policiais. Como explica a historiadora Silvana Jeha em Uma História da Tatuagem no Brasil, não porquê tatuagem seja necessariamente ligada ao crime ou a patologia, mas principalmente porque é nesses espaços que o estado exerce seu controle aos corpos, registrando e documentando as marcas sob seu olhar. Muito comum no cárcere, tatuagens de pontos são uma síntese simbólica a qual o grupo e/ou o contexto atribuem significados, e a obra Código .1.5.3, 2026, fala desse jogo (video). Cartilhas policiais tabelam essas marcas onde 1 ponto tatuado significa o crime X, 2 pontos o crime Y, e assim sucessivamente, expondo os portadores ao julgamento antecipado e perpétuo. Já no Código Penal Brasileiro, o artigo 153 é sobre o crime de divulgação de segredos. Outra tatuagem comum, e que foi associada aos ambientes de privação de liberdade, é sobre o amor de mãe. Sentimento universal ao qual também buscam categorizar e significar, e que em Desculpa, 2026, trago o seu lado sentimental e afetivo. 

Outro sentimento cotidiano aparece em Saudade, 2026, onde essa transferência simbólica entre pele e reboco se materializa também na ausência, no pedaço que falta.  A cicatriz do muro deixa de ser metáfora e se torna evidência de um corpo coletivo que guarda memória, e que já marcava esse território antes do tijolo e do concreto. Em ///, 2026, o gesto de tatuar deixa de ser apenas urbano para tocar imaginários mais antigos, que atravessam corpo e território por caminhos que a ciência cartesiana nunca conseguiu capturar. Entre meus trabalhos e minha vida, permanece a recusa em reduzir essas marcas ao mero exotismo, pois entendo a tatuagem enquanto linguagem, capaz de articular conceitos, relações e identidades.

 

links: portfólio e reels

 
 

 
Nossa Senhora Aparecida Desenho na parede - autor desconhecido -  Ocupação 9 de Julho

Ns. Sra. Aparecida, desenhada à lápis na parede interna da Ocupação 9 de Julho.

Tatuagem de Ns. Sra. Aparecida, fotografia do acervo do Museu Penitenciário Paulista.

 

Santinha, 2019
Tatuagem sobre Muro
Argamassa e pigmento; 100 × 75 cm

 
 
 

Significado das tatuagens de pontos, segundo cartilha da Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia, disponível em aqui.

O soldado Euclides tatuou as cinco chagas nas duas mãos “para fechar o corpo", em 1904 num quartel da Polícia de Belo Horizonte, Minas Gerais. MPP, f 289 - no livro Uma História da Tatuagem no Brasil, de Silvana Jeha.

 
 
 

Código .1.5.3, 2026
Tatuagem sobre Muro
Tijolo, argamassa e pigmento; 19,5 × 78 × 10 cm

Código .1.5.3, 2026
Tatuagem sobre Muro
Tijolo, argamassa e pigmento; 19,5 × 78 × 10 cm

 
 
 
 

Desculpa, 2026
Tatuagem sobre Muro
Tijolo, argamassa e pigmento; 19,5 × 40 × 10 cm

 
 

Leopoldo tatuou “mãe” em sua casa, na cidade de Santos. MPP, f 577 - Uma história da tatuagem no Brasil, Silvana Jeha

 
 

Desculpa, 2026 (detalhe)
Tatuagem sobre Muro
Tijolo, argamassa e pigmento; 19,5 × 40 × 10 cm

 
 
 

Saudade, 2026
Tatuagem sobre Muro
Tijolo, argamassa e pigmento, 39 × 40 × 10 cm

 

Saudade, 2026 (detalhe)
Tatuagem sobre Muro
Tijolo, argamassa e pigmento, 39 × 40 × 10 cm

 
 

Saudade, 2026
Tatuagem sobre Muro
Tijolo, argamassa e pigmento, 39 × 40 × 10 cm

 
 
 

///, 2026
tatuagem sobre muro
Tijolo, argamassa e pigmento; 105 × 106 × 10 cm

 

///, 2026 (detalhe)
tatuagem sobre muro
Tijolo, argamassa e pigmento; 105 × 106 × 10 cm

 

///, 2026 (detalhe)
tatuagem sobre muro
Tijolo, argamassa e pigmento; 105 × 106 × 10 cm