Grande Sertão: Veredas

caminhos do processo criativo da tatuagem baseada no livro Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

 

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

Precisei de coragem para aceitar o trabalho de transformar em tatuagem uma obra tão grandiosa quanto o livro de Guimarães Rosa. Como dar conta da imensidão do sertão e da riqueza de texturas e paisagens daquele texto? 


Lendo o livro, a primeira intuição que tive é que precisava do maior horizonte possível, vasto como se vê no cerrado, e de se perder, pequinininho, no mundão.  Na imensidão dos braços abertos, a paisagem da chapada com suas lonjuras e recantos, “Como aquela vista reta vai longe, longe, nunca esbarra”. Isso tava decidido.


A segunda, já pensando mais a fundo sobre o trabalho, foi sobre o uso da linguagem. O palavreado tão fundamental no texto, não poderia deixar de ser na tatuagem, algum jeito de dar forma àquilo escrito. daí que fui pesquisar no popular o visual que pudesse funcionar bem na pele, com o envelhecimento natural do corpo (“o correr da vida embrulha tudo”), e que andasse bem com o assunto. não poderia ser formal nem dura demais, e havia que dar conta da delicadeza dos detalhes. o simples que carrega a complexidade.

Desenho a mão, no lápis e no papel. Conforme a leitura, eu ia desenhando as imagens que vinha na cabeça. A simplicidade e a textura do grafite caiu bem com a fluidez da narração de Riobaldo, um traço mais solto de HB praquele cinzinha e depois voltava com um 6B mais forte pra dar contraste e definição. 

desenho originais, feito à mão, lápis HB e 6B sobre papel.

desenho originais, feito à mão, lápis HB e 6B sobre papel.

Conversando com Daniel, fizemos anotações das passagens do livro que mais marcou pra ele e fomos ligando os pontos, juntando coisas e dando sentido a outras. Não era pra caber tudo, mas ter as pistas que puxassem o fio da memória. Detalhes na paisagem que fazem lembrar, e de onde a história do livro cruzasse com a vida dele mesmo.


“O senhor sabe: o sertão é onde o pensamento da gente canta mais alto do que o que a gente fala."


Desenhei tudo no braço dele só pra entender o que cabia, quais caminhos se podia traçar nessa jornada e que bichos e paisagens avistaríamos no caminho. Depois risquei meu mapa no papel, apontando o Norte, com os desenhos de guia, mas não quis colar decalque. Olhei o mapa e fui, desenhei tudo denovo. “caminhar é bom. O que a gente quer é a travessia.” 

Cachoeira, buritizal, cajuzinho, riacho, serrinha, chapadão, cavalo, onça, cobra, lobo guará, arara, o ranchinho e os jagunços. E também o cramunhão no meio do redemoinho, tudo misturado. 

 

processo de desenho direto na pele. freehand.

Pra tatuar fiz que nem no desenho, 2 agulhas, uma fininha pra riscar solto, fazer os cinzinhas e texturas, e uma mais grossa, pra dar o peso onde queria contrastar. Num dia de setembro andamos metade do caminho, e só em dezembro terminamos a jornada. Desde que recebi a proposta e comecei a ler, foi quase 1 ano. 

A grandeza assusta, mais de 500 páginas pra caber numa tatuagem só, de uma história cheia de voltas, fácil de se perder. Perigoso de errar o caminho, pesar a mão aqui ou ali, querer conter tudo e não fazer nada. Tinha o risco sim, mas teve coragem também. Foi a cadência da narração de Riobaldo que ditou o ritmo, lendo e desenhando aos poucos, passo a passo, fazendo o caminho entre veredas e buritizais, percorremos uma imensidão: “o sertão é do tamanho do mundo”. 

Foram as vivências de Daniel enquanto lia o livro que o fizeram querer marcar na pele aquela travessia. E foram as minhas, nesse processo criativo, que me fazem deixar aqui escrito um pouco do que encontrei nesse percurso.


 "O sertão está em toda parte. O sertão é dentro da gente."

o maior horizonte possível, de braços abertos. a chapada e sua lonjuras. foto: vermelho filmes

Riobaldo e Diadorim. foto: vermelho filmes

“jagunço é homem já meio desistido de si.” foto: vermelho filmes

"sertanejo é bicho de fé e de armas. O jagunço carrega o rosário no peito e a cartucheira na cintura. Deus num lado, o diabo no outro, e ele no meio tentando caminhar.” foto: vermelho filmes

logo guará. foto: vermelho filmes

arara azul. foto: vermelho filmes

Riobaldo. foto: vermelho filmes

Riobaldo, uruto-branco, e a casinha da fazenda. foto: vermelho filmes

onça pintada. foto: vermelho filmes

tatuagem no braço completa. foto: vermelho filmes